Equilíbrio emocional não é ausência de emoções, é a gestão delas

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Equilíbrio emocional não é ausência de emoções, é a gestão delas

Muita gente acredita que uma pessoa equilibrada é aquela que não fica angustiada, que não sente raiva, tristeza, medo ou ansiedade. Esse é um dos equívocos mais comuns, e mais prejudiciais quando o assunto é saúde emocional.

Mas de onde vem essa ideia? Provavelmente de uma cultura que, por muito tempo, associou maturidade emocional ao silêncio interno. Frases como “não chore”, “não demonstre fraqueza”, dentre outras, foram repetidas por gerações como se sentir fosse um defeito a ser corrigido, e não uma característica essencialmente humana.

Emoções não são inimigas

Emoções não são inimigas, elas são sinais, e ignorá-las é como desligar o painel do carro achando que o problema sumiu. A luz de alerta continua acesa e você simplesmente escolheu não olhar para ela.

Cada emoção carrega uma informação. A raiva, por exemplo, costuma sinalizar que um limite foi ultrapassado, o medo avisa sobre uma ameaça percebida, real ou não, enquanto a tristeza indica uma perda, uma despedida, algo que importava. E tem também a ansiedade, tantas vezes mal interpretada, que pode ser o organismo tentando nos preparar para algo que ainda está por vir.

Nenhuma dessas emoções é, por si só, um problema. O problema começa quando não sabemos o que fazer com elas, quando as reprimimos ou quando as deixamos tomar as rédeas sem nenhum tipo de direcionamento consciente.

O que Daniel Goleman nos ensina sobre isso

O psicólogo Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional, trouxe para o centro do debate uma ideia que contraria a visão tradicional de inteligência: não basta ter um QI elevado se não somos capazes de lidar com o que sentimos.

Goleman mostra que não se trata de fingir que nada se sente, mas de saber o que fazer com o que se sente. Reconhecer, nomear e direcionar uma emoção é uma habilidade, e como toda habilidade, pode ser desenvolvida.

Essa é uma das ideias mais libertadoras dentro da psicologia contemporânea: você não precisa nascer com equilíbrio emocional. Você pode construí-lo.

Inteligência emocional envolve, entre outras coisas, autoconsciência, ou seja, a capacidade de perceber o que está sentindo no momento em que sente, e também autorregulação, que é a habilidade de não agir no impulso da emoção, mas sim de processá-la antes de responder.

Equilíbrio emocional não é frieza

É importante deixar claro: equilíbrio emocional não é frieza, e muito menos indiferença. Pessoas emocionalmente equilibradas sentem, e sentem muito, inclusive. A diferença está na relação que estabelecem com o que sentem.

Uma pessoa com alto grau de equilíbrio emocional pode ficar com raiva, mas não vai destruir um relacionamento por causa de uma discussão passageira. Pode também sentir medo, mas não vai paralisar diante de uma decisão importante. Pode estar triste, porém não vai se deixar afundar sem buscar apoio ou compreender o que está acontecendo.

Equilíbrio é ser consciente diante do que se sente, é observar a emoção sem se fundir com ela. É reconhecer: “estou sentindo raiva agora”,  e não “eu sou a raiva”.

Essa diferença, aparentemente sutil, muda completamente a forma como a pessoa age.

Sentir faz parte da experiência humana

Emoções e sentimentos fazem parte da experiência humana. Não existe vida plena sem alegria genuína, sem o luto quando se perde alguém, sem a excitação diante do novo, sem o desconforto que antecede o crescimento.

O problema não está em sentir, mas em ser dominado sem perceber.

Quando uma emoção intensa surge e não é reconhecida, ela começa a agir por conta própria. Dizemos coisas que não queríamos dizer, tomamos decisões que, olhando de volta, não fazem sentido, nos afastamos de pessoas que amamos ou nos aproximamos de situações que nos fazem mal. Tudo isso porque havia algo não elaborado por baixo.

A não percepção das próprias emoções não as elimina, apenas transfere o controle para elas.

A pausa que pode mudar tudo

Diante de situações que gerem emoções intensas, não é necessário agir no impulso. O melhor a se fazer é parar, respirar e observar.

Essa pausa pode parecer simples demais, e é justamente por isso que tanta gente subestima o seu poder.

A respiração, nesse contexto, não é apenas um recurso poético. Ela cria as condições internas para uma resposta mais consciente.

Parar, respirar, observar. Três verbos simples que, praticados com consistência, mudam a qualidade das relações, das decisões e da vida como um todo.

Como desenvolver o equilíbrio emocional na prática

Se o equilíbrio emocional é uma habilidade, então ele pode ser treinado. Alguns caminhos práticos para isso:

  1. Nomeie o que você está sentindo.Pesquisas mostram que apenas nomear uma emoção já reduz sua intensidade. Em vez de “estou mal”, tente ser mais preciso: estou ansioso com a reunião,ou estou magoado com o que foi dito. A especificidade ajuda o cérebro a processar.
  2. Não julgue a emoção.Sentir raiva,medo ou tristeza não te torna frágil. As emoções não têm moral,  elas simplesmente são, e o julgamento sobre elas é o que cria o problema secundário: a culpa por sentir.
  3. Crie espaço entre o estímulo e a resposta.Esse é o coração da autorregulação. Antes de enviar aquela mensagem raivosa, antes de dizer aquela frase no calor do momento, pare, respiree espere. Você pode responder mais tarde, quando a intensidade baixar.
  4. Busque autoconhecimento continuamente.Terapia, leitura, meditação, escrita reflexiva, qualquer prática que te ajude a olhar para dentro com honestidade contribui para o desenvolvimento emocional.
  5. Reconheça seus padrões.Certas situações disparam certas emoções de forma quase automática? Esse é um dado valioso, pois identificar os gatilhos é o primeiro passo para não ser surpreendido por eles.

Equilíbrio emocional é um caminho, não um destino

Por fim, vale dizer: equilíbrio emocional não é um estado fixo que se atinge e nunca mais se perde. É um processo contínuo. Haverá dias difíceis, momentos em que a emoção chega rápido demais e a pausa não acontece. Isso também faz parte.

O que muda, com o tempo e com a prática, é a frequência com que você consegue se observar antes de reagir, a velocidade com que você se reconecta depois de uma desregulação, a qualidade da relação que você constrói com o que sente.

Equilíbrio emocional não é ausência de emoções. É a habilidade de estar presente diante delas sem fugir, sem ser engolido, mas atravessando com consciência o que a vida traz.

E isso, como Goleman já dizia, pode ser aprendido.